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A ÚNICA COISA REALMENTE LIVRE É O PENSAMENTO!

quarta-feira, 30 de março de 2011

A DOMINAÇÃO DO OUTRO SOBRE O OUTRO

Pierre Bourdieu, Sociólogo francês nascido no ano de 1930, na vila de Denguin, Distrito de Pyrénees, falecido em janeiro de 2002, em Paris, catedrático de sociologia no Colège de France, exerceu grande influência no ramo da sociologia em todo o mundo. Conhecido pelo seu rigor intelectual, destacou em seus estudos as relações sociais e as diversas formas de dominação existente nelas.

Segundo Pierre Bourdieu, os atores sociais interagem por meio de jogos, sem normas explícitas, nos quais as pessoas fazem suas escolhas de vida influenciadas pelo seu habitus, ou seja, no caminho percorrido para o alcance de seus objetivos o indivíduo é dominado pela situação econômica, política, cultural e social onde atua. Nem sempre a escolha é a mais adequada do ponto de vista individual, porém, se analisada no âmbito do seguimento social de onde se origina, essa lhe trará maior proveito dentro do grupo.

Sob a égide dessas idéias, Bourdieu, apresenta uma de suas teses qual seja, a do poder simbólico, uma vez que, aparentemente o ator social pode escolher livremente a ação a ser tomada, porém, ele tende a optar por aquilo que será mais apreciado do ponto de vista do contexto onde se situa o processo de sua existência.

Ainda, acerca da formação da identidade individual, o sociólogo demonstra que origina do habitus os elementos para a formação do capital cultural, capital social, capital econômico e que, também, daí se surgem as desigualdades para o desenvolvimento do indivíduo, uma vez que as oportunidades oferecidas nesses campos não são igualitárias, obrigando os atores sociais a utilizarem diferentes estratégias na condução de seu “jogo”.

Para Bourdieu, o sistema educacional contribui para a existência das desigualdades quando, no processo de seleção escolar, marginaliza aqueles pertencentes as classes populares e, ainda, reforça as desigualdades entre os gêneros quando conduz as ações e os comportamentos mais adequados ao ser feminino e o ser masculino.

Pierre Bourdieu trata especificamente da dominação do masculino sobre o feminino em sua obra “A dominação Masculina” (1998), onde demonstra que o fato está presente no processo evolutivo histórico do ser humano. Para o autor, a dominação do homem sobre a mulher é exercida por meio de uma violência simbólica, compartilhada inconscientemente entre dominador e dominado, determinado pelos esquemas práticos do habitus, conforme explicitado no trecho transcrito a seguir:

[...] O efeito da dominação simbólica (seja ela de etnia, de gênero, de cultura, de língua etc) se exerce não na lógica pura das consciências cognoscentes, mas através dos esquemas de percepção, de avaliação e de ação que são constitutivos dos ‘habitus’ e que fundamentam, aquém das decisões da consciência e dos controles da vontade, uma relação de conhecimento profundamente obscura a ela mesma. Assim a lógica paradoxal da dominação masculina e da submissão feminina, que se pode dizer ser, ao mesmo tempo e sem contradição, espontânea e extorquida, só pode ser compreendida se nos mantivermos atentos aos efeitos duradouros que a ordem social exerce sobre as mulheres (e os homens), ou seja, às disposições espontaneamente harmonizadas com esta ordem que as impõem. [...] (Bourdieu, 2002, p. 49/50).

Ainda no contexto da obra “A dominação Masculina” Bourdieu, discorre sobre a utilização das trocas simbólicas nas relações:

[...] É na lógica da economia das trocas simbólicas – e, mais, precisamente, na construção social das relações de parentesco e do casamento, em que se determina às mulheres seu estatuto social de objetos de troca, definidos segundo os interesses masculinos, e destinados assim a contribuir para a reprodução do capital simbólico dos homens -, que reside a explicação do primado concedido à masculinidade nas taxinomias culturais. O tabu do incesto, em que Lévi-Strauss vê o ato fundador da sociedade, na medida em que implica o imperativo de troca compreendido como igual comunicação entre os homens, é correlativo da instituição da violência pela qual as mulheres são negadas como sujeitos da troca e da aliança que se instauram através delas, mas reduzindo-as à condição de objetos, ou melhor, de instrumentos simbólicos da política masculina: destinadas a circular como signos fiduciários e a instituir assim relações entre os homens, elas ficam reduzidas à condição de instrumentos de produção ou de reprodução do capital simbólico e social. [...]

Pierre Bourdieu descreve a violência simbólica como um ato sutil, que oculta relações de poder que alcançam não apenas as relações entre os gêneros, mas, toda a estrutura social.

Nesse aspecto o autor desenvolveu, em seus mais recentes trabalhos, análise sobre os meios de comunicação, especialmente da televisão, falando sobre a mercantilização generalizada da cultura e demonstrando sua responsabilidade na perpetuação da ordem simbólica, comprovando que aqueles que dela participam são tão manipulados quanto manipuladores. Mostra também que a televisão exerce uma das formas mais nocivas de violência simbólica, pois, conta com a cumplicidade silenciosa dos que a recebem e dos que a praticam.

Em entrevista publicada na Folha de São de Paulo de 07 de fevereiro de 1999, Pierre Bourdieu discorre acerca das idéias lançadas em sua obra “Sobre a Televisão” (1997):

[...] A análise critica do papel da televisão é um elemento capital da luta contra a imposição da visão dominante do mundo social e do seu devir. O mais importante consiste na influência que a televisão exerce sobre a totalidade do jornalismo e através dele, sobre o conjunto da produção cultural. A lógica do comércio, simbolizada pelos índices de audiência, do sucesso comercial, da venda e do marketing, como meio específico para atingir esses fins puramente temporais, impôs-se em primeiro lugar ao campo filosófico, com os “novos filósofos”, e ao campo literário com os grandes best sellers internacionais e o que Pascale Casanova chamou de world fiction, ou seja, em especial os romances acadêmicos à David Lodge ou Umberto Eco; mas ela atingiu também o campo jurídico; com os processos sensacionalistas arbitrados pela mídia, e no próprio campo científico, com a intrusão da notoriedade jornalística na avaliação dos cientistas e das suas obras. [...]

As teses desenvolvidas por Pierre Bourdieu, remetem à reflexão sobre a ordem constituída e aceita por todos como legítima e conclama os grupos sociais à mobilização no sentido de buscarem o reconhecimento dos mecanismos que levam a aceitação do domínio do outro sobre o outro e, promover a ruptura do círculo vicioso que perpetuam a aceitação das diferenças como algo natural, sejam elas, sociais, econômicas, políticas ou de gêneros.


terça-feira, 29 de março de 2011

SOCIEDADE DE CONSUMO

As mudanças tecnológicas e industriais ocorridas nos últimos tempos definiram historicamente as transformações das sociedades capitalistas. O desenvolvimento experimentado pela modernidade traz junto a si, a massificação dos meios de produção, que aumentaram em quantidade, velocidade e diversidade. Com isso, as relações entre produção e consumo se intensificaram e o mercado cresceu, aumentando a lista de mercadorias disponibilizadas à população.

Nossas vidas foram invadidas por inovações do desenvolvimento técnico científico que cria produtos para uma massa populacional, dando a ideia de individual. Vivemos em um mundo, como nos afirma Luciana Sacramento: "em um mundo de pura estética e a sociedade dividida m tribos gangs". Os grupos sociais estão se organizando pela forma e pela maneira daquilo que consomem, das marcas que utilizam. Nós somos aquilo que consumimos. A partir daí, os valores passam a ser aquilo que eu uso, que eu compro; e não aquilo que eu verdadeiramente sou como pessoa.

O processo industrial, a mídia e o marketing modificam o imaginário das pessoas, tornando objeto de desejo algo que possa ser consumido. Passam-nos a ideia de que se usarmos tal produto ou comprarmos tal marca, seremos diferentes, seremos melhores, vencedores. Com isso, essa pressão socioeconômica causada pelo consumo mobiliza as massas em direção a realizações pessoais. Assim, o mundo capitalista fragmenta através de um ideal de intenso consumo, um projeto coletivo.

E o grande truque, está na personalização da produção em massa. Através do avanço da informática é possível consumir através da internet, aonde o consumidor vai moldando o seu produto. Como por exemplo, os automóveis, onde se escolhe a cor, os detalhes, enfim, vai dando a impressão que se está consumindo um produto exclusivo.

Dessa forma, em nossa sociedade o importante não é SER, mas sim PARECER. A legitimidade das coisas e do que as pessoas representam está na aparência não na essência, isto é, o que a pessoa pensa, aquilo em que ela acredita, não é mais o principal. Vale muito mais aquilo que ela aparenta ser, no seu modo de vestir, os lugares que frequenta, o bairro que mora, o carro que tem, etc. – Fabrício Colombo.

CIENTISTA SOCIAL

Cientista Social
"Individuo que estuda a Ciência que se ocupa dos assuntos sociais e políticos, especialmente da origem e desenvolvimento das sociedades humanas em geral e de cada uma em particular"

O que é ser cientista social?
Cientistas sociais são profissionais que analisam hábitos, costumes, características religiosas, relações familiares, organização institucional e econômica de diversos grupos sociais, com base em pesquisas e observações. Pesquisam fenômenos como migrações, conflitos sociais e movimentos políticos. Tais conhecimentos podem ser aplicados na solução de problemas nas áreas de educação, saúde, violência urbana, entre outros. A pesquisa científica é a base do trabalho do cientista social, este profissional pode atuar em três linhas: na Sociologia, na Antropologia e na Ciência Política. Tais áreas da ciência são diferentes, porém estão interligadas, pois estudam vários tipos de sociedades e de culturas em diversas épocas da história da humanidade.

Quais as características necessárias para ser cientista social?
Como é uma carreira voltada para pesquisa e estudos o Cientista social deverá ter capacidade para interpretar dados, ser objetivo, capacidade de concentração, exatidão, ser meticuloso e gostar de ler. Características desejáveis:
capacidade de análise
capacidade de comunicação
capacidade de observação
curiosidade
espírito de investigação
facilidade de expressão
gosto pela pesquisa e pelos estudos
gosto pelo debate
habilidade para escrever
interesse pela leitura
interesse por temas da atualidade
raciocínio abstrato desenvolvido
raciocínio lógico desenvolvido

Qual a formação necessária para ser cientista social?
Um cientista social precisa obter o diploma de graduação no curso de ciências sociais. Muitas universidades e institutos de pesquisa exigem também diplomas de pós-graduação. Além disso, o cientista social deve procurar estar sempre atualizado, lendo jornais e revistas de interesse geral ou especializado, procurando novas obras lançadas em sua área ou freqüentando seminários e congressos.

Principais atividades de um cientista social
Estes profissionais podem trabalhar em diversas funções como pesquisadores, professores universitários, críticos e em assessoria a empresas e projetos de urbanização. Além de muita leitura e da redação de artigos e estudos, eles podem vir a exercer atividades como:
realizar estudos em institutos e universidades e publicá-los em revistas especializadas;
orientar alunos em suas teses de pós-graduação;
escrever artigos sobre arte, cultura, política e economia para jornais e revistas;
dar aulas em escolas de ensino médio e em faculdades de ciências sociais ou de psicologia, educação, história, comunicação social, entre outras;
elaborar análises sociais para órgãos públicos, empresas privadas, sindicatos, partidos políticos e organizações não-governamentais;
elaborar projetos de planejamento urbano e de desenvolvimento para uma região;
realizar pesquisas de mercado para empresas de pesquisa e agências publicitárias;
prestar consultoria para políticos, com base em entrevistas com eleitores

Áreas de atuação e especialidades
Podem especializar-se em três áreas:
antropologia: estuda as diferentes sociedades sob o aspecto cultural e do comportamento humano: estrutura familiar, religião, língua, folclore, costumes e manifestações artísticas.
sociologia: analisa as relações sociais entre os indivíduos. Investiga origem, desenvolvimento e funcionamento das instituições.
ciência política: pesquisa a sociedade do ponto de vista do poder político. Trabalham com questões ligadas à opinião pública, ideologias e legislações. Estudam a origem e o funcionamento dos sistemas de governo, das instituições e dos partidos políticos.
Além disso, o cientista social pode atuar como docente, ministrando aulas de Ciências Sociais no ensino fundamental, médio e universitário.

Mercado de trabalho
O mercado de trabalho para cientistas sociais é competitivo tanto no setor público como no privado. Nas décadas de 1960 e 1970, essa carreira era das mais procuradas nas universidades, o que já não ocorre hoje. Nos últimos anos, o setor público vem oferecendo algumas vagas aos novos profissionais geralmente com contrato temporário. Houve expansão do campo de trabalho no magistério, pois foi aprovado no Congresso Nacional um projeto de lei que torna obrigatório o aprendizado de sociologia no ensino médio. O mercado editorial é uma opção. Há expectativa de expansão de publicações - jornais e revistas - e a demanda por trabalho de cientistas sociais na área pode aumentar. Também na área de assessoria e planejamento estão crescendo as oportunidades no setor de pesquisa de opinião pública. As empresas privadas também estão começando a contratar profissionais da área para atuar nos departamentos de marketing e recursos humanos. Em épocas de eleição surgem boas chances de trabalho na área de consultoria para partidos políticos.

Curiosidades
Como ciência, a sociologia surgiu no século XIX e tem contribuído em todas as áreas de ciências sociais, em busca das respostas às inquietações da humanidade.
Augusto Comte, Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber são exemplos de pioneiros na sociologia.
No Brasil, a história do ensino da sociologia foi atribulada, principalmente durante a ditadura militar, com propostas de inclusão e posterior exclusão da matéria no currículo escolar.
Em 1933 foi fundado o primeiro curso de sociologia no Brasil, na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, e em 1934 foi criada a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP.
Hoje, no Brasil, são quase 40 mil profissionais, sendo 10 mil registrados no Ministério de Trabalho.
Fonte: Redação Brasil Profissões

segunda-feira, 28 de março de 2011

A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO

Émile Durkheim (1858-1917) integra o grupo de cientistas sociais considerados fundadores da sociologia. Em 1893 ele publicou sua tese de doutoramento, intitulada De la Division du Travail Social, estudo em que aborda a interação social entre os indivíduos que integram uma coletividade maior: a sociedade.

Trata-se de um tema central no pensamento sociológico de Durkheim, cujo principal interesse é desvelar os fatores que possibilitam a coesão (unidade, estabilidade) e a permanência (ou continuidade) das relações sociais ao longo do tempo e de gerações. Dentro da perspectiva sociológica durkheimiana, a existência de uma sociedade só é possível a partir de um determinado grau de consenso entre seus membros constituintes: os indivíduos. Segundo Durkheim, esse consenso se assenta em diferentes tipos de solidariedade social.

Solidariedade mecânica
Em De la Division du Travail Social, Durkheim esclarece que a existência de uma sociedade, bem como a própria coesão social, está baseada num grau de consenso entre os indivíduos e que ele designa de solidariedade. De acordo com o autor, há dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica.
A solidariedade mecânica prevalece naquelas sociedades ditas "primitivas" ou "arcaicas", ou seja, em agrupamentos humanos de tipo tribal formado por clãs. Nestas sociedades, os indivíduos que a integram compartilham das mesmas noções e valores sociais tanto no que se refere às crenças religiosas como em relação aos interesses materiais necessários a subsistência do grupo, essa correspondência de valores assegura a coesão social.

Solidariedade orgânica
De modo distinto, existe a solidariedade orgânica que é a do tipo que predomina nas sociedades ditas "modernas" ou "complexas" do ponto de vista da maior diferenciação individual e social (o conceito deve ser aplicado às sociedades capitalistas). Além de não compartilharem dos mesmos valores e crenças sociais, os interesses individuais são bastante distintos e a consciência de cada indivíduo é mais acentuada.

A divisão econômica do trabalho social é mais desenvolvida e complexa e se expressa nas diferentes profissões e variedade das atividades industriais. Durkheim emprega alguns conceitos das ciências naturais, em particular da biologia (muito em uso na época em que ele começou seus estudos sociológicos) com objetivo de fazer uma comparação entre a diferenciação crescente sobre a qual se assenta a solidariedade orgânica.
Durkheim concebe as sociedades complexas como grandes organismos vivos, onde os órgãos são diferentes entre si (que neste caso corresponde à divisão do trabalho), mas todos dependem um do outro para o bom funcionamento do ser vivo. A crescente divisão social do trabalho faz aumentar também o grau de interdependência entre os indivíduos.
Para garantir a coesão social, portanto, onde predomina a solidariedade orgânica, a coesão social não está assentada em crenças e valores sociais, religiosos, na tradição ou nos costumes compartilhados, mas nos códigos e regras de conduta que estabelecem direitos e deveres e se expressam em normas jurídicas: isto é, o direito.
Renato Cancian

sábado, 26 de março de 2011

CULTURA POLÍTICA

Quando utilizamos a expressão cultura política podemos estar nos referindo ao conjunto de atitudes, normas, crenças e valores políticos partilhados pela maioria dos membros de uma determinada sociedade ou nação. Além disso, o tipo do sistema ou regime político em vigor num determinado país, incluindo as instituições políticas existentes, também integram o conceito de cultura política.

Como se vê, a cultura política de uma determinada sociedade ou nação representa um vasto e complexo campo para a pesquisa social. Vasto porque lida com uma multiplicidade de variáveis (ou fatores) que integram a cultura política propriamente dita, entre elas: a) o comportamento de apatia (alienação) dos cidadãos; b) os graus de confiança e de tolerância; c) a adesão ou recusa a determinadas formas de ação política e instituições, em detrimento de outras; d) as configurações das forças políticas atuante; e) as identidades partidárias; e f) os modos como os conflitos políticos que surgem no sistema são percebidos e solucionados.

Esses e muitos outros fatores envolvendo práticas comportamentais - direcionadas às esferas de ação política - podem ser agregados ao conceito de cultura política. A cultura política também é um campo de pesquisa bastante complexo, porque os padrões de crenças e valores políticos não são fenômenos estáticos. Ou seja, como eles mudam, a cultura política também pode sofrer transformações no transcurso de determinado período de tempo.

Além disso, uma configuração predominante de valores, crenças e atitudes convive com outras configurações, menos influentes, as chamadas subculturas políticas, que podem ser condicionadas por diferenças de classes sociais, religião, etnia, fatores geracionais (diferenças entre gerações), entre outras. Tais diferenças estão presentes e atuantes em uma mesma sociedade.

Há também teóricos que chegam a mencionar a existência de uma cultura política das massas e uma cultura política das elites.

Influências antropológicas
No âmbito da ciência política, os primeiros estudos acadêmicos (elaborados no início do século 20) envolvendo a noção de cultura política sofreram fortes influências intelectuais provenientes das pesquisas antropológicas, sobretudo da antropologia culturalista.

Por conta dessa influência - um paradigma inerente, mas superficial -, a maioria desses estudos foi marcado pelo determinismo, o que se traduziu numa visão distorcida da realidade, sob a alegação de que cada nação apresenta uma configuração específica de valores, crenças e práticas políticas, homogêneas e imutáveis, que derivam de características naturais ou inatas de cada povo (sobretudo da raça e etnia).

Aliado à ausência de uma sólida base de fundamentação empírica, o enfoque determinista produziu resultados equivocados que se traduziram em visões preconceituosas sobre as sociedades estudadas.

Além dessas deficiências e limitações, as abordagens de raízes culturalistas produziram análises apriorísticas sobre o "destino político" das nações, ao indicarem que, por exemplo, a democracia, o autoritarismo, o militarismo, a ditadura eram sistemas políticos derivativos de determinadas culturas políticas.

Conseqüentemente, supunha-se que as matrizes culturais dos povos bloqueariam qualquer tentativa de mudança de sistema político. O que não é verdade.
Renato Cancian

quinta-feira, 24 de março de 2011

O SENTIDO DA HISTÓRIA

O passado é uma construção de seu tempo. Construção das ideologias e das concepções predominantes da época em que se olha para o fato, momento ou marco histórico. Exemplo disso, são as imagens, símbolos e monumentos tombados pelo patrimônio histórico cultural, que segundo algumas tendências falam por si, ou seja, seu impacto é tão grandioso que falam por si mesmas. Até posso concordar com essa linha de pensamento, porém, não podemos esquecer de que o que essas imagens "falam" são traduzidas e interpretadas pelos olhos de que a vê. E nessa interpretação colocará nessa imagem o significado baseado em suas ideologias e conceitos, refletindo assim, a construção do seu olhar e do seu tempo sobre o marco histórico. Portanto, o passado é uma construção do seu tempo, isto é, o presente desse passado, através de suas concepções atuais, que se renovam e se recriam através dos tempos.

A preservação da História e de seus patrimônios é importantíssima tanto para as sociedades, quanto para os indivíduos. Para ilustrar a importância do passado, imagine uma pessoa que no decorrer de sua vida por um motivo qualquer perdeu a sua memória. Essa pessoa, ao não lembrar de seu passado, não consegue se identificar, ou seja, perdeu sua identidade, seus valores, suas referências. Onde ela irá procurar essa identidade perdida? A busca será feita nas imagens do seu passado, naquilo que ela guardou, o seu patrimônio histórico (fotos, vídeos, documentos escritos, objetos pessoais, históricos escolares, roupas, cds, livros, etc...), símbolos estes, que representam a sua personalidade, tentando lembrar, reconstruir a sua história, para saber o seu presente, sua identidade.

Pois bem, com as sociedades humanas, nações, civilizações é a mesma coisa. Uma mesma sociedade necessita buscar em marcas, símbolos, documentos escritos do seu passado, pontos de referência que as identifique, que aponte semelhanças entre seus membros, onde consigam se reconhecer, e ao mesmo tempo, as diferencie das demais.
Fabrício Colombo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa."
Sócrates - filosofo grego.

segunda-feira, 21 de março de 2011

HISTORIADOR

O que é ser historiador?
Historiadores são profissionais que reúnem documentos e dados, situam os fatos em seu contexto, reconstroem, interpretam e analisam o passado de indivíduos, grupos e movimentos sociais, instituições, regiões, cultura, arte, idéias e costumes - que abrangem todos os aspectos da História.

Quais as características necessárias para ser historiador?
É preciso ter interesse em leitura, boa memória, boa redação, ser organizado, capacidade de análise e reflexão, além de interesse pelas questões sociais.

Características desejáveis:
boa memória
capacidade de organização
capacidade de síntese
curiosidade
espírito de investigação
facilidade de expressão
gosto pela pesquisa e pelos estudos
gosto pelo debate
habilidade para escrever
interesse pela leitura
raciocínio lógico desenvolvido
senso crítico

Qual a formação necessária para ser historiador?
Para exercer o magistério no ensino fundamental e médio, é preciso ter bacharelado e licenciatura em história. Para o ensino universitário, a licenciatura não é necessária, mas quase sempre é preciso ter o grau de mestre ou doutor. Há programas de mestrado e doutorado em história que constituem excelente qualificação para prestadores de serviços de consultoria na área de produção cultural em geral.

Principais atividades de um historiador
Além de atuarem como professores do ensino fundamental, médio e superior, historiadores atuam na área de pesquisa e consultoria, dedicando-se a:
levantar e analisar a bibliografia sobre o assunto em pauta;
analisar e interpretar documentos originais como cartas, telegramas, diários, jornais, fotografias, gravações, objetos, arquivos;
fazer o levantamento e organização de acervos;
fazer entrevistas e organizar informações;
escrever e publicar teses, artigos, livros, revistas e catálogos;
elaborar projetos e levantar recursos;
organizar exposições históricas e eventos comemorativos em museus, sítios históricos, bibliotecas e arquivos públicos, empresas privadas;
organizar seminários e ciclos de debates;
assessorar empresas de turismo na elaboração de roteiros de viagens;
assessorar escritores, roteiristas e autores de produções culturais na criação de seus projetos;
atuar como produtor de arte, contratado por emissoras de televisão para ambientar personagens, orientar figurino, decoração de interiores, e cenários externos de acordo com o estilo da época em que se desenvolve a trama.

Áreas de atuação e especialidade
Ensino: lecionar no ensino fundamental, médio e superior.
Consultoria: levantar e organizar informações para publicações, exposições e eventos em empresas, museus, editoras, produtoras de vídeo e CD-ROM ou emissoras de TV. Dar palestras e seminários.
Pesquisa: investigar e analisar fatos históricos, consultando as mais diversas fontes (bibliotecas, entidades, pessoas etc.). Publicar teses (pela universidade) ou livros, quando o tema é de interesse geral.

Mercado de trabalho
O mercado de trabalho para historiadores é um pouco restrito nos setores público e privado. Prefeituras e municípios têm feito concursos para o ensino fundamental e médio. A abertura de vagas e concursos depende da aposentadoria dos professores em exercício e de autorização do MEC. Porém, o aumento do número de universidades particulares e cursinhos pré-vestibulares gerou crescimento da demanda por professores de História. Há um crescimento do mercado também na área das atividades de pesquisa e consultoria para produções culturais. Nos centros de pesquisa histórica o mercado é estável.

Curiosidades
A profissão de historiador é antiga, já que, por natureza, o homem sempre procurou desvendar os mistérios do passado. No final do século XIX, os estudiosos classificavam a história como os fatos que eram localizados em tempo e em espaço, ou seja, apenas privilegiava os grandes acontecimentos e as personalidades notórias.
Mas essa visão vem mudando, e o campo que a matéria abrange vem aumentando, incluindo os fatos cotidianos, estudando as relações interpessoais, os conflitos regionais, religiosos, ou seja, analisando a sociedade sobre o ponto de vista econômico, político, étnico, cultural, popular e etc.
Com isso, o historiador passa a compreender a fundo as razões, as explicações dos fatos e, assim, pode também propor soluções, uma vez que está engajado com a problemática social.



MARXISMO

Doutrina filosófica, econômica, política e social formulada pelos filósofos alemães Karl Marx e Friedrich Engels (1820-1895) entre 1848 e 1867.

Tem como fontes principais o idealismo de Friedrich Hegel (1770-1831), o materialismo filosófico francês do século XVIII e a economia política inglesa do começo do século XIX. Segundo o marxismo, a característica central de qualquer sociedade está no modo de produção (escravista, feudal ou capitalista), que varia com a história e determina as relações sociais. Com o processo produtivo, os homens criam as próprias condições de sua existência. A história seria, então, o resultado das lutas entre os interesses das diferentes classes sociais. Esse conflito só desapareceria com a instalação da sociedade comunista, concebida como igualitária e justa. Nela, o Estado é abolido, não há divisão social nem exploração do trabalho humano, e cada indivíduo contribui de acordo com sua capacidade e recebe segundo sua necessidade.

Para o marxismo, o capitalismo é um sistema no qual a burguesia concentra o capital e os meios de produção (instalação, máquina e matéria-prima) e explora o trabalho do proletariado, mantendo-o numa situação de pobreza e alienação. Por estar baseado nessa característica contraditória, a de explorar seu próprio alicerce - a classe trabalhadora -, o sistema prepara o caminho para sua própria destruição. O capitalismo levaria a luta de classes a um ponto crítico, em que o proletariado, privado de sua liberdade por meio da contínua exploração, acabaria por se unir. A derrota da burguesia coincidiria com a instalação do comunismo.

domingo, 20 de março de 2011

A VERDADE

No senso comum temos a verdade como aquilo que é correto, o que realmente aconteceu. Ao contrário disso é errado, não aconteceu, é invenção, portanto, mentira. Porém, a verdade é muito mais complicado do que isso. O que é verdadeiro e o que é falso, como diria Platão, só existe no mundo das idéias. Dessa forma, temos que ter noção que esses dois princípios: verdadeiro e falso, são construções das sociedades humanas, portanto, resultado da evolução cultural do homem. Ou seja, aquilo que o homem ao longo de sua história consolidou como verdade ou não.

Os pensadores ao longo do tempo tentaram concituar a verdade, o que por si só, prova o que foi dito acima.Temos várias noções de verdades. A verdade absoluta seria aquela inquestionável, ou seja, é um fato absoluto e verdadeiro, imutável, não pode ser modificado. Por exemplo: "Todo homem um dia vai morrer." Alguns dirão que a verdade é relativa. Nesse caso ela é mutável, questionável, isto é, modifica-se com o tempo com as transformações científicas e ideológicas das sociedades e das culturas humanas. Por exemplo: "a beleza está nos olhos de quem vê"; não há uma verdade para o que é bonito, um conceito universal que idealize a beleza.

No entanto a verdade não se consolida entre os homens nos modelos ideológicos dos pensadores, mas sim no senso comum, naquilo que determinado grupo aceita como verdadeiro ou não. E esta aceitação esta alicerçada na ética, nos valores morais, nos costumes e cultura de cada grupo social, que necessariamente não são os mesmos valores pertencentes e consolidados em outros grupos sociais. Assim, temos várias verdades, em várias épocas e em vários lugares.
Fabrício Colombo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

AUGUSTO COMTE

As idéias de Auguste Comte, o criador do positivismo, influenciaram grandemente a formação da república no Brasil. Tanto, que o lema da bandeira brasileira, "Ordem e progresso", foi inspirado na doutrina desse filósofo francês.
Auguste Comte fez seus primeiros estudos em Montpellier, sua cidade natal. Em Paris, ingressou na Escola Politécnica, mas com o fechamento temporário da escola, em 1816, voltou a Montpellier para continuar seus estudos na faculdade de medicina.
No ano seguinte, voltou a estudar em Paris, mas foi expulso da Escola Politécnica, passando a realizar pequenos trabalhos para sobreviver. Ainda em 1817, tornou-se secretário do filósofo socialista Saint-Simon, que o apresentou ao mundo intelectual francês.
Já imerso na elaboração da doutrina do positivismo, Comte publicou em 1822 seu "Plano de trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade". Dois anos mais tarde, rompeu com Saint-Simon, pois as doutrinas dos dois eram incompatíveis. Neste período casou-se com Caroline Massin, de quem se divorciaria em 1842.
Em 1826 Auguste Comte foi internado numa clínica de saúde mental, para tratar-se de problemas psiquiátricos. Em 1830 iniciou a publicação de seu "Curso de Filosofia Positiva", que seria concluída doze anos mais tarde. Em 1832, retornou à Escola Politécnica para lecionar, mas, não obtendo cátedra, saiu em 1844.
Neste mesmo ano, teve um envolvimento platônico com Clotilde de Vaux, que perduraria até a morte desta, dois anos depois. Em 1848 Auguste Comte criou uma "Sociedade Positivista", que angariou grande número de seguidores. Entre 1851 e 1854, publicou os volumes do "Sistema de política positivista", cujas idéias viriam fundamentar várias correntes de pensamento político, em vários países.
No Brasil a influência do positivismo de Comte traduziu-se não só no ideário de nossos republicanos, mas nas ações políticas que acompanharam a proclamação da República. Entre elas, a separação entre igreja e Estado, o estabelecimento do casamento civil, o fim do anonimato na imprensa e a reforma educacional proposta por Benjamin Constant, um dos mais influentes positivistas brasileiros.

segunda-feira, 7 de março de 2011

MAX WEBER

Max Weber viveu no período em que as primeiras disputas sobre a metodologia das ciências sociais começavam a surgir na Europa, sobretudo em seu país, a Alemanha. Filho de uma família de classe média alta, com o pai advogado, Weber encontrou em sua casa uma atmosfera intelectualmente estimulante. Ainda era criança quando se mudaram para Berlim. Em 1882 foi para a Faculdade de Direito de Heidelberg. Um ano depois transferiu-se para Estrasburgo, onde prestou o serviço militar.
Em 1884 reiniciou os estudos universitários, em Göttingen e Berlim, dedicando-se as áreas de economia, história, filosofia e direito. Trabalhou na Universidade de Berlim como livre-docente, ao mesmo tempo em que era assessor do governo. Cinco anos depois, escreveu sua tese de doutoramento sobre a história das companhias de comércio durante a Idade Média. A seguir escreveu a tese "A História das Instituições Agrárias". Casou-se, em 1893, com Marianne Schnitger e, no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, transferindo-se, em 1896, para a de Heidelberg.
Depois disso, passou por um período de perturbações nervosas que o levaram a deixar o trabalho. Só voltou à atividade em 1903, participando da direção de uma das mais destacadas publicações de ciências sociais da Alemanha. No ano seguinte publicou ensaios sobre a objetividade nas ciências sociais e a primeira parte de "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", que se tornaria sua obra mais conhecida e é de fato fundamental para a reflexão sociológica.
Em 1906 redigiu dois ensaios sobre a Rússia: "A Situação da Democracia Burguesa na Rússia" e "A Transição da Rússia para o Constitucionalismo de Fachada". No início da Primeira Guerra Mundial, Weber, no posto de capitão, foi encarregado de administrar nove hospitais em Heidelberg.
Quando a guerra terminou, mudou-se para Viena, onde deu o curso "Uma Crítica Positiva da Concepção Materialista da História". Em 1919 pronunciou conferências em Munique, publicadas sob o título de "História Econômica Geral". No ano seguinte faleceu em consequência de uma pneumonia aguda.



HÁ HOMENS

“Há homens que lutam um dia e são bons; Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, e estes são imprescindíveis.”

( BERTOLD BRECHT )

sexta-feira, 4 de março de 2011

Os direitos civis e as revoluções do século 18

A cidadania moderna refere-se ao conjunto de direitos e deveres dos cidadãos que pertencem a uma nação, ou seja, o povo de um país. O núcleo dessa cidadania compõe-se basicamente de três elementos: o civil, o político e o social.
O aparecimento e a extensão dos direitos de cidadania ocorreram de forma lenta e gradual, variando bastante conforme a região.
Os direitos civis agrupam as prerrogativas de liberdade individual, liberdade de palavra, pensamento e fé, liberdade de ir e vir, o direito à propriedade, o direito de contrair contratos válidos e o direito à justiça. Os tribunais são as instituições públicas por excelência para salvaguarda dos direitos civis.

Iguais perante a lei
Antes da constituição da cidadania moderna, os direitos e deveres entre os homens eram definidos por privilégios sociais (posses, rendas, títulos de nobreza).
O surgimento dos direitos civis assinalou uma mudança substancial nas relações dos homens em sociedade. Foram rompidos os laços de dominação baseados nas relações comunitárias tradicionais, caracteristicos do período medieval e do sistema feudal.
Os direitos civis impuseram um nivelamento jurídico entre os cidadãos, que passaram a ser considerados iguais perante a lei. As distinções de origem e classe social continuam a existir, mas não devem interferir na igualdade jurídica dos cidadãos. Esse é o princípio básico de tais direitos.

O contrato social
O surgimento dos direitos civis está vinculado às revoluções burguesas na Europa do século 18. Elas tiraram a força das monarquias absolutistas e romperam com a sociedade hierarquizada do período pré-moderno. No absolutismo monárquico, a autoridade política (o rei) detinha o poder com base em privilégios sociais (nobreza hereditária).
Os filósofos do liberalismo político foram os autores das doutrinas contratualistas. Também denominadas "contrato social", elas fundamentaram no plano ideológico a nascente igualdade formal nas relações entre os cidadãos. Os mais influentes filósofos contratualistas foram o inglês John Locke e o francês Jean-Jacques Rousseau.
No Brasil, o primeiro avanço registrado na área dos direitos civis foi a abolição da escravidão (1888). A primeira Constituição republicana (1891) assegurou a igualdade legal entre os cidadãos brasileiros. Garantiu as liberdades de crença, de associação e reunião, além do habeas corpus, para remediar qualquer violência ou coação por ilegalidade ou abuso de poder.
Renato Cancian

quarta-feira, 2 de março de 2011

POSITIVISMO

A palavra positivismo foi empregada pela primeira vez pelo filósofo francês Claude Saint-Simon - um dos chamados socialistas românticos - para designar o método exato das ciências e a possibilidade de sua extensão à filosofia. Mais tarde, o politécnico Auguste Comte (1798-1857), que foi seu secretário, utilizou a expressão para designar a sua filosofia, que teve grande expressão no mundo ocidental durante a segunda metade do século 19 (estendendo-se no Brasil à primeira metade do século 20).
O positivismo acompanhou e estimulou a organização técnico-industrial da sociedade moderna e fez uma exaltação otimista do industrialismo. Nesse sentido, pode-se compreendê-lo como produto da sociedade técnico-industrial que, ao mesmo tempo, a leva esta mesma sociedade a desenvolver-se e consolidar-se.
Basicamente, a característica essencial ao positivismo, tal qual o concebeu Comte, é a devoção à ciência, vista como único guia da vida individual e social, única moral e única religião possível. Desse modo, em última análise, o positivismo é compreendido como a "religião da humanidade".
A partir da ciência - e de uma ciência social ou sociologia, da qual Comte é um fundador -, o filósofo propunha reformular a sociedade para que se obtivesse ordem e progresso. Note-se, porém, que isso implica a criação de uma ciência social, pois só é possível reformular ou transformar aquilo que conhecemos.
A obra fundamental de Comte é o "Curso de Filosofia Positiva", livro escrito entre 1830 e 1842, a partir de 60 aulas dadas publicamente pelo filósofo, a partir de 1826. É na primeira delas que Comte formulou a "lei dos três estados" da evolução humana:
•o estado teológico, em que a humanidade vê o mundo e se organiza a partir dos mitos e das crenças religiosas;
•o estado metafísico, baseado na descrença em um Deus todo-poderoso, mas também em conhecimentos sem fundamentação científica;
•o estado positivo, marcado pelo triunfo da ciência, que seria capaz de compreender toda e qualquer manifestação natural e humana.
Passados mais de 150 anos da publicação do "Curso", talvez não fosse necessário dizer que é inerente ao positivismo uma romantização da ciência, romantização esta que atribuiu ao conhecimento científico uma onipotência não comprovada pela realidade. Atualmente, sabe-se que a ciência não só resolve problemas, como também os cria: veja-se como um exemplo a interferência danosa do desenvolvimento industrial no meio ambiente.
Conhecer o positivismo, contudo, é particularmente importante aos brasileiros, devido à grande influência que esta escola filosófica exerceu no país na virada dos séculos 19 e 20. Se o leitor foi atento, percebeu que o objetivo da filosofia de Comte é a ordem e o progresso, lema inscrito na bandeira brasileira adotada após a proclamação da República.
As idéias de Comte, em especial através dos pensadores Miguel Lemos (1854-1917), Teixeira Mendes (1855-1927) e do militar Benjamin Constant (1836-1891), se impuseram aos círculos republicanos brasileiros, contribuindo para nortear a nova ordem social republicana, em especial nos governos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.
Antonio Carlos Olivieri

terça-feira, 1 de março de 2011

KARL MARX

O pensamento de Karl Marx mudou radicalmente a história política da humanidade. Inspirada em suas idéias, metade da população do mundo empreendeu a revolução socialista, na intenção de coletivizar as riquezas e distribuir justiça social.
Karl Heinrich Marx nasceu em Trier, na Renânia, então província da Prússia, em 5 de maio de 1818. Primeiro dos meninos entre os nove filhos de uma família judaico-alemã, foi batizado numa igreja protestante, de que o pai, advogado bem-sucedido, se tornara membro, provavelmente para garantir respeitabilidade social. Depois de estudar em sua cidade natal, em 1835 Marx ingressou na Universidade de Bonn, onde participou da luta política estudantil.
Na Universidade de Berlim, para a qual se transferiu em 1836, começou a estudar a filosofia de Hegel e juntou-se ao grupo dos jovens hegelianos. Tornou-se membro de uma sociedade formada em torno do professor de teologia Bruno Bauer, que considerava os Evangelhos narrativas fantásticas suscitadas por necessidades psicológicas.
Com uma posição política que se identificava cada vez mais com a esquerda republicana, Marx em 1841 apresentou sua tese de doutorado, em que analisava, na perspectiva hegeliana, as diferenças entre os sistemas filosóficos de Demócrito e de Epicuro. Nesse mesmo ano concebeu a idéia de um sistema que combinasse o materialismo de Ludwig Feuerbach com o idealismo de Hegel. Passou a colaborar no jornal Rheinische Zeitung, de Colônia, cuja direção assumiu em 1842. No ano seguinte, Marx casou-se com Jenny von Westphalen e, logo após, sua publicação foi fechada.
O casal mudou-se para Paris, onde Marx entrou em contato com os socialistas. Em 1845, expulso da França pelo governo, estabeleceu-se em Bruxelas e iniciou a duradoura amizade e colaboração com Friedrich Engels. Die heilige Familie (1845; A sagrada família) e Die deutsche Ideologie (1845-1846, publicada em 1926; A ideologia alemã) foram as primeiras obras que escreveram a quatro mãos. Nessa época, Marx trabalhou em diversos tratados filosóficos contra as idéias de Bruno Bauer e do socialista utópico Pierre-Joseph Proudhon, e em 1848 redigiu, com Engels, o Manifest der Kommunistischen Partei (Manifesto comunista), resumo do materialismo histórico, em que aparecia pela primeira vez o famoso apelo à revolução com as palavras "Proletários de todos os países, uni-vos!"
Depois de participar do movimento revolucionário de 1848 na Alemanha, Marx regressou definitivamente a Londres, onde durante o resto da vida contou com a generosa ajuda econômica de Engels para manter a família. Em 1852 escreveu Der 18 Brumaire des Louis Bonaparte (O 18 Brumário de Luís Bonaparte), em que analisa o golpe de estado de Napoleão III do ponto de vista do materialismo histórico. Sete anos depois, publicou Zur Kritik der politischen Ökonomie (Contribuição à crítica da economia política), seu primeiro tratado de teoria econômica, e em 1867 o primeiro volume de Das Kapital (O capital), monumental análise do sistema socioeconômico capitalista, sua obra mais importante.
Marx voltou à atividade política em 1864, quando participou da fundação da Associação Internacional de Trabalhadores. Como líder e principal inspirador dessa Primeira Internacional, sua presença se reafirmou em 1871, por ocasião da segunda Comuna de Paris, movimento revolucionário de que a associação participou ativamente e em que pereceram mais de vinte mil revoltosos. As divergências do anarquista Mikhail Bakunin, a partir de 1872, provocaram a derrocada da Internacional. Marx ainda participou em 1875 da fundação do Partido Social Democrata Alemão e em seguida retirou-se da atividade política para concluir Das Kapital. Apesar de ter reunido imensa documentação para continuar o livro, os volumes segundo e terceiro só foram editados por Engels, em 1885 e 1894. Outros textos foram publicados por Karl Kautsky, como quarto volume, entre 1904 e 1910. Karl Marx morreu em 14 de março de 1883, em Londres.